Expedições · 9 min de leitura

Do Preá a Atins: mais de 350 km de downwind pelo litoral mais selvagem do Brasil

O relato da Rota dos Ventos, nosso downwind do Preá a Atins: dez dias, três estados e mais de 350 km de kite. Teve Jericoacoara, Delta do Parnaíba e Lençóis Maranhenses, além de perrengues, guarás e muita emoção.

Downwind de kitesurf do Preá a Atins pelo litoral do Ceará
Downwind pelo litoral do Ceará, primeira etapa da Rota dos Ventos.

Tem viagens que a gente faz e tem viagens que fazem a gente. A Rota dos Ventos, nosso downwind do Preá a Atins, foi das segundas.

Em setembro de 2026, saí da Praia do Preá com seis clientes que viraram amigos. Por terra, o Vinícius cuidava de tudo. No horizonte, um único destino: Atins, nos Lençóis Maranhenses.

Foram dez dias, três estados e mais de 350 km velejando. Além disso, teve perrengues que eu nunca vou esquecer e risadas que ainda ecoam na cabeça. Essa é a nossa história.

  • 10 diasde expedição
  • +350 kmvelejando
  • 3 estadosCeará, Piauí e Maranhão
  • 7 velejadorese um carro de apoio
FOTO PENDENTE: turma reunida no Preá antes da saída
Nesta história
  1. Dia 1: o Preá, onde tudo começa
  2. Dia 2: Preá a Praia do Maceió
  3. Dia 3: rumo ao Piauí
  4. Dia 4: o dia que testou todo mundo
  5. Dia 5: o velejo mais bonito do Delta
  6. Dia 6: 80 km até o Arpoador de Tutóia
  7. Dia 7: o day off
  8. Dia 8: Arpoador a Atins
  9. Dia 9: a lagoa dos Lençóis
  10. Dia 10: a despedida

Dia 1: o Preá, onde tudo começa

A maior parte da turma já estava no Preá alguns dias antes. Assim, velejava com a gente na escola e entrava no ritmo do vento. Enquanto isso, ficamos hospedados na Vila Tuga, nossa casa antes da partida.

Por isso, no primeiro dia, fizemos o briefing e um downwind de aquecimento. Depois, abrimos todo o material que iria nos acompanhar: kites, pranchas, trapézios e kit de reparos. Naquela noite, dava para sentir no ar uma mistura de ansiedade e empolgação. Afinal, todo mundo sabia que estava prestes a viver algo grande.

Dia 2: Preá a Praia do Maceió, 65 km para dizer “chegamos”

Foi aqui que o downwind do Preá a Atins começou de verdade. Vento forte, maré seca e o litoral do Ceará inteiro pela frente. Passamos por Jericoacoara, Guriú, Tatajuba e Praia do Farol até a Praia do Maceió, em Camocim.

Para um primeiro dia, 65 km é muita coisa. O corpo sente e a cabeça cansa. Mesmo assim, a sensação de olhar para trás e perceber o quanto já tínhamos andado é impossível de explicar.

Dia 3: rumo ao Piauí e 12 pizzas em Barra Grande

Foram mais 60 km de downwind por um litoral selvagem: Praia do Xavier, Barra dos Remédios e Curimãs. Em seguida, cruzamos o Rio de Bitupitá, na divisa entre o Ceará e o Piauí. Afinal, atravessar um estado velejando tem um gosto especial.

Chegamos à tarde em Barra Grande, e a fome era tanta que foram mais de 12 pizzas no jantar. Ninguém conseguia parar de rir. Ali eu soube que essa turma era especial.

FOTO PENDENTE: velejo com os aerogeradores ao fundo

Dia 4: o dia que testou todo mundo

Esse foi o dia mais duro de todo o downwind do Preá a Atins. Saímos de Barra Grande, cruzamos todo o litoral do Piauí e chegamos ao Maranhão.

Para contornar o porto de Luís Correia, tivemos que entrar muitos quilômetros mar adentro, longe da costa. Éramos só nós, o kite e o oceano. Depois, atravessamos o Canto do Vieira, passamos pela Pedra do Sal e seguimos até as Ilhas Canárias, no Delta do Parnaíba.

Teve de tudo: kite na água, kites se cruzando, cansaço e medo. Em alguns momentos, parecia que não ia dar. No entanto, a gente seguiu junto. No final, depois de muito sacrifício, muito choro e muito riso, todos chegaram bem à Pousada Casa de Caboclo, nosso refúgio no Delta. É nesses dias que um grupo vira uma equipe.

Dia 5: o velejo mais bonito do Delta

Se eu tivesse que escolher um único dia da viagem, seria esse. Saímos da foz do Rio Parnaíba e velejamos cerca de 12 km no mar. Em seguida, atravessamos uma duna e entramos em um rio.

Foram mais 15 km velejando por dentro da Ilha dos Poldros, num silêncio que só a natureza intocada tem. Mangue dos dois lados, água calma e ninguém além de nós. Ou seja, uma atmosfera completamente diferente de tudo o que eu já vi no kite.

No fim da tarde, assistimos à revoada dos guarás: centenas de aves vermelhas cruzando o céu do Delta. Ninguém falava nada, só olhava. Depois, fomos jantar no restaurante Flor da Mata, onde sempre somos recebidos de braços abertos, e comemos até não aguentar mais.

FOTO PENDENTE: velejo dentro do rio / revoada dos guarás

Dia 6: 80 km atravessando o Delta até o Arpoador de Tutóia

Saímos de novo da foz do Parnaíba para atravessar todo o Delta até o Arpoador de Tutóia. Foram cerca de 80 km, um dos dias mais longos da viagem.

Horas e horas na água, com o corpo pedindo para parar e a cabeça mandando continuar. Por isso, quando chegamos, a sensação foi de conquista pura. Esse é o tipo de chegada que fica para sempre.

Dia 7: o day off que não foi tão off assim

No Arpoador de Tutóia, ficamos hospedados na Vila Ronquinha, um lugar que acolhe a gente como família. O dia era de descanso. Mas quem conhece kitesurfista sabe que isso não existe.

Teve downwind para quem queria curtir as ondas do Arpoador. Também teve flat no rio de Paulino Neves. Ali, a aventura resolveu aparecer de novo: kite ejetado, kite em death loop e quase fomos parar do outro lado do rio. Eu e os dois Brunos, num trabalho de equipe, resolvemos tudo sem grandes problemas. No fim, virou mais uma história para contar no jantar.

Dia 8: Arpoador a Atins, o último grande downwind

Esperamos a maré seca e saímos mais tarde para pegar a melhor condição. Foram cerca de 70 km passando pela Praia do Amor, pelo Rio Novo, em Paulino Neves, e pelo Caburé.

No meio do caminho, o vento caiu muito. A partir daí, cada quilômetro passou a custar caro, e todos tivemos muita dificuldade. Porém, quando Atins apareceu no horizonte, o cansaço sumiu.

O destino final tinha sido alcançado. Abraços, gritos e gente emocionada na areia. Mais de 350 km de downwind depois de sair do Preá, a gente tinha chegado a Atins.

Em Atins, ficamos na Pousada Paraíso dos Ventos, o lugar perfeito para descansar depois de uma conquista dessas.

FOTO PENDENTE: chegada em Atins

Dia 9: downwind técnico e a lagoa dos Lençóis Maranhenses

Mesmo depois de tudo, ninguém quis ficar parado. Fizemos um downwind de cerca de 30 km até o Rio Negro, com vento forte e maré cheia. Por isso, foi um velejo extremamente técnico. De lá, embarcamos no carro direto para a lagoa.

E que tarde! A lagoa estava cheia, o vento estava perfeito e velejamos entre as dunas brancas dos Lençóis Maranhenses como se fosse um sonho. Muitas fotos, muitos vídeos e muita risada. Foi a celebração que essa turma merecia.

FOTO PENDENTE: kite na lagoa com as dunas ao fundo

Dia 10: a despedida pelo Rio Preguiças

Alguns ficaram mais uns dias em Atins. O resto do grupo voltou de lancha pelo Rio Preguiças até Barreirinhas. No caminho, passamos pelo Farol do Mandacaru e por Vassouras, onde os macacos-prego vieram nos dar tchau. De Barreirinhas, eu e alguns clientes voltamos para o Preá, e os outros seguiram para São Luís.

Despedida é sempre estranha depois de dez dias assim. A gente se separa, mas leva todo mundo junto.

Obrigado

Essa viagem só foi o que foi por causa das pessoas.

Ao Bruno e à Dani, ao Bruno, ao Carlos, à Larissa e ao Lucas: obrigado pela confiança e pela coragem nos dias difíceis. Obrigado também pela alegria em todos os outros. Vocês fizeram dessa travessia algo muito maior que um downwind.

Ao Vinícius, nosso motorista e anjo da guarda por terra: obrigado por estar sempre lá, em cada chegada, com tudo pronto para a gente.

Por fim, aos parceiros que nos receberam tão bem pelo caminho: Vila Tuga, no Preá; Pousada Casa de Caboclo e restaurante Flor da Mata, no Delta do Parnaíba; Vila Ronquinha, no Arpoador de Tutóia; e Pousada Paraíso dos Ventos, em Atins.

Uma viagem que todo kitesurfista deveria fazer

Foi uma viagem incrível, com pessoas incríveis, que todo velejador brasileiro deveria fazer pelo menos uma vez na vida. Afinal, um downwind longo como o do Preá a Atins exige conhecer vento, maré e logística. E é isso que a gente vive todos os dias na nossa escola de kitesurf no Preá.

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Felipe Hidvégi

Felipe Hidvégi

Fundador da WindSpirit Kite Experience e instrutor IKO. Veleja há mais de dez anos e vive no Preá há oito. Além disso, fez travessias de mais de 700 km de kite pelo litoral do Ceará, Piauí e Maranhão.